2008-08-10 -> Bernado Brum ->

O Massacre da Serra Elétrica: U$ 140 mil e atores que ninguém sabe o nome

 

Em primeiro lugar: se você assistiu o remake e assiste muitos filmes de terror atuais, talvez você não goste desse filme. Já vi isso acontecer. O nível de realidade gráfica atingida no cinema de hoje realmente não tem competição com os antigos. Os efeitos especiais são feitos com precisão cirúrgica, e faz muita gente dar menos valor aos antigos. Mas os antigos que se destacavam, em sua maioria, não davam valor à realidade estritamente precisa das mortes. O valor era dado à construção de uma história em que nos identificássemos com os personagens e que ficássemos tremendo de medo com os antagonistas. Nos tempos que terror, em sua maioria, era um gênero marginal, impiedosamente massacrado pela crítica cinematográfica, mas fazendo a cabeça de inúmeros jovens que, chocados e atordoados, passaram a ver no gênero mais do que um simples amontoado de sustos. Mesmo limitadíssimo em matéria de orçamento e recursos, o gênero estava lá, na cara de todos, cuspindo no rosto do tranqüilo cidadão comum os monstros que permitia criar bem debaixo de seu nariz.

Pois então, senhoras e senhores, de 1974, pelas mãos de Tobe Hooper, O Massacre da Serra Elétrica.

Míseros cento e quarenta mil dólares gastos, uma fotografia documental, atores que ninguém sabe o nome. E ainda assim é uma das experiências de horror definitivas, que todo mundo conhece e sente certa repulsa só de dizer o nome - bem, não há como ser sutil quando se escolhe um título desses, não é verdade? Como conseqüência, não há espaço para gracinhas ou momentos leves. Leatherface é o tipo de homicida tão louco que fez muitas pessoas saírem do cinema enjoadas. O roteiro breve, brutal e cruel não poupa o fôlego de ninguém; vai construindo empatia com os personagens, nos fazendo acreditar que os personagens poderiam ser qualquer um de nós. E de repente, não mais que de repente...

Mas, botando ordem na bagunça, O Massacre começa perturbador, com um letreiro avisando que o que virá a seguir foi baseado numa tragédia. Uma voz de rádio anuncia que tumbas estão sendo violadas. E a primeira imagem que vemos é um cadáver decomposto, eliminando qualquer sinal de que existam momentos para respirar aqui. E a história então começa quando a jovem Sally vai levar até a casa de campo de sua família junto de seu irmão paralítico Frank, seu namorado Jerry e um casal amigo, Kirk e Pam, dentro de uma van. No caminho, dão carona a um estranho homem, que logo revela ser realmente perturbado ao cortar a própria mão e apunhalar Frank no braço. Como o bom senso manda, o homem então é expulso do automóvel.

Mesmo com medo, seguem viagem. E quando chega a casa, que começa. Enquanto circulam pela casa, transam e vêem os arredores, tudo parece normal. Incrível como Hooper, que tanto exagerou em filmes posteriores, segurou a mão neste aqui. Um deles ouve sofridos grunhidos de porco em uma casa vizinha. E aí que aparece. Um grandalhão demente e musculoso, com uma monstruosa máscara de pele no rosto, aparece e acerta-o com uma marretada. Depois disso, prepare-se para não conseguir respirar direto por todo o tempo que resta do filme.

Leatherface e sua família de canibais açougueiros são algumas das figuras mais sinistras já vistas em um filme. O elenco amador parece estar em pânico literal ao encarar tão sinistras figuras. E o mais irônico é que O Massacre da Serra Elétrica mostra muito pouca violência: alguma marretada ali, alguma cena mais forte de violência gráfica acolá... Mas na maioria esmagadora das vezes, Tobe desvia a câmera. Somos obrigados a ouvir o barulho de uma motoserra em pleno funcionamento, ouvimos gritos lancinantes, e não sabemos direito o que acontece. Efeito que as seqüências, o remake e o prelúdio não conseguiram repetir. Tudo nesse filme parece feito pra chocar. A cena em que Sally é amarrada para jantar com os canibais é capaz de causar pesadelos. Novamente, Hooper não exibe nojeira ou sangue escorrendo. E sim, num dos closes mais marcantes do filme, foca os olhos da intérprete de Sally, Marilyn Burns, assustados, perturbados, sempre a ponto de perder a razão. A falta de trilha sonora nas cenas de perseguição, mesclada a gritos e ruídos da motossera, fazem você querer que esse pesadelo insuportável acabe logo. A sua respiração se torna tão difícil quanto a da protagonista Sally, você sua frio feito ela, e a sua resistência à exibição de dor vai sendo esmigalhada e esfacelada em seqüências simplesmente antológicas.

Definitivamente, O Massacre da Serra Elétrica não foi feito para ser um terror de sábado à noite. Tal qual Aniversário Macabro, de Wes Craven e Holocausto Canibal, de Ruggero Deodato, é sujo, imoral, doentio... contracultural, ousado, corajoso e revolucionário. Medo é o que não falta nesse filme. E não apenas isso. Desconforto, repulsa, agonia, pânico, nojo. Não é algo a ser chamado propriamente de sétima arte, mas sim um teste dos limites de até onde os nervos do espectador agüentam. Depois desse filme, o psicopata monstruoso estava criado, longe do aparentemente normal, lobo em pele de cordeiro excêntrico, Norman Bates de Psicose. Tobe revolucionou o gênero com um grandalhão de dois metros, uma motoserra e uma máscara feita de retalhos de pele humana, inspirando-se no real psicopata Ed Gein. Toda a voracidade possuída por Michael Myers, Freddy Krueger e outros assassinos famosos têm a dever com essa figura totalmente pária da terra das oportunidades, mas que no meio do Texas árido e selvagem, construiu seu reinado à base de sangue e morte, em um filme que, até hoje, continua tão suave quanto um cruzado de direita no queixo.

Se você estiver cansado de filmes de terror comuns, sem atmosfera e que se baseiam em nada mais que uma cacetada de sustos para fazer sucesso, e nunca tiver visto esse verdadeiro clássico, por favor, não perca mais tempo. É ver e ter seu estômago revirado com um diretor que, pelo menos à época desse filme (já que depois, massacrou sua própria obra dirigindo uma péssima continuação e se envolvendo na direção de "Poltergeist - O Fenômeno"), sabia o que fazia: chocava todo o mundo mostrando que na parte árida do mais poderoso país existiam mais do que caubóis, xerifes e saloons... Nas sombras vizinhas ao quintal da sua casa, pode haver muito mais do que você espera. Ou quer.


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