2008-08-06 -> Bernado Brum ->

A última sessão de cinema: O melhor filme do Batman

A experiência nos ensina a sermos desconfiados. Tentar sobrepujar e ignorar os falatórios, desprezar os elogios exaltados e críticas empolgadas em excesso foi um pensamento que já tomou grandes partes dos cinéfilos. Afinal, depois da primeira decepção, quando é que pode vir a próxima? Vá saber... Mas, como diria a sabedoria popular, toda regra tem sua exceção.

Eu mesmo vinha com uma certa desconfiança. Para mim, o único filme do Batman que poderia ser chamado de filme, foi o primeiro de Tim Burton, mesmo assim, perdido em certa comicidade e inocência, prejudicado ainda pelo dispensável protagonista Michael Keaton. A única coisa que pegou mesmo lá foi o Coringa de Jack Nicholson, que dentro da proposta de Burton, não pôde fazer muita coisa - uma pena, já que estamos falando de um intérprete tão talentoso. Tim Burton ainda fez uma seqüência totalmente dispensável, e, apenas para rolar ladeira abaixo, ainda calhou de Joel Schumacher fazer dois filmes absolutamente péssimos com atores de qualidade duvidosa como George Clooney, Arnold Schwarzenegger e Chris O'Donnell.

Parecia não haver jeito para o Batman. Logo ele, meu herói favorito, que nem ao menos era um herói direito - ao longo dos quadrinhos, histórias como A Piada Mortal, Batman: Ano Um, O Cavaleiro das Trevas e Asilo Arkham me fizeram compreender que Batman, mais do que um super herói como todos da Liga da Justiça, era em sua essência um homem perturbado, com um passado traumático que determinou todo o resto das suas ações pelo resto dos seus dias, um passado que o tornou totalmente obcecado com noções de nobreza, justiça e ordem. Até o início da década, parecia que nunca nenhum cineasta estaria disposto a encarar o verdadeiro espírito perturbador do homem que a cultura pop entitulou com os singelos pseudônimos "cavaleiro das trevas" e "homem-morcego".

Parecia. Apenas parecia. Ouvi um professor falando de como o novo filme do Batman era bom e tudo o mais, mais de uma vez. Um tal de "Batman Begins", de um tipo ainda desconhecido para mim, Christopher Nolan, e um dos meus atores favoritos da nova geração, Christian Bale, de quem sou fã desde que tive a oportunidade de assistir Psicopata Americano. Pois então, mesmo desconfiado, aluguei. E assumo, sem vergonha nenhuma, com certo prazer, que queimei a língua. A Gotham City parecia muito mais real, muito mais violenta, injusta e cruel, assim como nos quadrinhos. Na linha psicológica, tal qual Frank Miller fez nos quadrinhos, era muito mais uma história de grandes traumas, de autoconhecimento, do que o verdadeiro samba do crioulo doido gótico em que um maluco fantasiado e superequipado rodava por uma cidade estereotipada batendo sem dó em vilões totalmente caricaturais. Nós conhecíamos Bruce Wayne pela primeira vez, entediamos suas motivações e muitas vezes não compreendíamos suas ações. Uma linha totalmente nova para o Batman cinematográfico. Ponto para Chris Nolan.

Aí veio a continuação em que, infelizmente, o ator Heath Ledger morreu pouco após a conclusão do filme por causa de overdose acidental de remédios. O que já reunia certa aura de mistério em torno de si tomou proporções colossais depois do triste incidente, fazendo O Cavaleiro das Trevas ser um dos filmes mais aguardados da história do cinema recente. As pessoas ansiaram por meses para ver o que o novo filme trazia de tão bom assim. Se um começo tão bom teria uma continuação a nível de qualidade. E então, no dia da estréia, esse caro fã do Morcegão que vos fala, após alguns minutos, sentiu-se seguro: se depender desse time, Bruce Wayne ainda tem muita, muita história para contar. O Cavaleiro das Trevas não é apenas muito melhor que Batman Begins: ele leva os filmes de heróis e os blockbusters em geral a uma dimensão ainda pouco conhecida: aquela livre de maniqueísmos, humana, psicológica e com mais de um discurso a ser levado em consideração. Apesar de ainda ser um blockbuster, ele tenta trazer ao espectador alguma reflexão, algo além de pura diversão, enfim: alguns questionamentos para se pensar.

Comecemos do começo. A história mostra o Batman, interpretado por Christian Bale, após algum tempo de atividade, mostrando que ele realmente se tornou um dos símbolos de Gotham, sendo admirado pela população e temido pelos criminosos. Ao mesmo tempo, um promotor, Harvey Dent (Aaron Eckhart) ganha notoriedade ao enfrentar a máfia em combates jurídicos e conseguir respeito da população, inclusive recebendo o título de "Cavaleiro Branco", em oposição ao Cavaleiro das Trevas, que intimida as máfias locais através de intimidação e combates físicos. Então, a identidade secreta de Batman, Bruce Wayne, começa a pensar, assim como sua amada Rachel (Katie Holmes em Begins, Maggie Gylenhaal em Cavaleiro das Trevas) disse no primeiro filme, se os seus dias de Batman não estariam chegando ao fim com a chegada de Harvey Dent, que ironicamente começa a ter um relacionamento amoroso com a amada do Homem-Morcego. Porém, acaba revelando-se uma decisão por demais precipitada: surge em Gotham, destituindo os já antigos os chefões da máfia, um insano gênio do crime, cheio de cicatrizes no rosto, com uma pintura de guerra facial e exóticos trajes, conhecido simplesmente como Coringa (Heath Ledger). Tal criminoso mostra astuto e inteligente a nível do Batman, além de ser um psicopata sádico e cruel. Então, o Batman terá que rever seus conceitos, pois sua contraparte acaba de surgir...

Em um filme que simplesmente beira a perfeição, vemos Christopher Nolan, cineasta em constante evolução, mesclando confortavelmente acessibilidade e inteligência, em um filme que quase sempre mostra um equilíbrio perfeito entre ambição comercial e ambição artística. Tem para todos os gostos - aos que preferem o lado mais dramático da coisa, o filme traz inúmeros questionamentos morais em um roteiro muito inteligente. Quem prefere o Batman mais sombrio terá oportunidade de ver, dos protagonistas aos antagonistas, uma verdadeira galeria de tipos sombrios capazes das ações mais impiedosas o possível. Quem procura diversão e ação, testemunhamos ela a dar de pau em seqüências de tirar o fôlego, de dar vertigem e de impedir o espectador de piscar, além dos inúmeros apetrechos de última geração possuídos pelo protagonista.

Há de se dizer que, um dos primeiros aspectos em que se notam, é a interessante relação entre os protagonistas Batman/Bruce Wayne, Harvey Dent, Comissário Gordon (Gary Oldman) e Coringa. Todos fazem parte do grande esquema de questionamentos que os irmãos Nolan propõem em seu roteiro: de um lado, está Batman, obcecado com a justiça; do outro, Coringa, obcecado com o caos; e entre os dois, Dent e Gordon são os tons de cinza entre o preto e o branco. E continuando a marcar presença, novamente temos Michael Caine como o mordomo Alfred, verdadeira consciência de Bruce; e Morgan Freeman como Lucius, que promovido na Wayne Enterprises, continua a ajudar o Homem-Morcego com aparato tecnológico.

Comentar das atuações já torna-se desnecessário: Christian Bale e Heath Ledger estão simplesmente fenomenais como dois inimigos naturais: o Coringa o tempo todo esfrega nos nossos rosto que ele nada mais é que uma versão distorcida e de ponta-cabeça do Batman; Bale não deixa vacilar, interpretando um Bruce cheio de culpas e um Homem-Morcego intimidador e sinistro que ruge. E Ledger, ah, Ledger; mas que Coringa fenomenal! Totalmente insano, psicótico, demente, perturbador, verdadeiro agente do caos por livre escolha; Uma persona assutadora, histérica e mórbida que o ator assume na hora de fazer frente ao mais perturbado personagem dos quadrinhos. O Coringa de Jack Nicholson chega a ficar com cara de Bozo perto desse sinistro criminoso. Aaron Eckhart está nervoso, angustiado, irritadiço e sempre com questões morais em jogo como Harvey Dent, que rola escada abaixo emocionalmente até tornar-se o corrompido Duas-Caras, que resolve tudo através da sorte.

Mas, eu disse "quase" perfeito. Talvez o filme não devesse alongar-se tanto. Quero dizer, ele nunca perde o ritmo; Nolan tem a mão acertadíssima para isso; mas nas mais de duas horas e meia do filme, certos momentos finais parecem de certa forma desnecessários, pensando friamente, e até injustos com personagens que no futuro poderiam ser melhor aproveitados. Mas nada que vá apagar o brilho de um filme tão grande, verdadeira "aventura de formação", uma jornada por dentro de mentes conturbadas; cenas como a do Coringa apanhando com brutalidade de Batman e mesmo assim rindo sádica e incansavelmente, ou quando os dois conversam com o Palhaço do Crime pendurado de ponta-cabeça enquanto denuncia para o espectador que lá estão duas noções que se completam, e precisam ser antagônicas para poder existir: moralidade e amoralidade, ordem e caos, o correto e o transgressor, bem e mal. Um depende do outro para poder continuar vivo. E ambos os personagens mostram serem igualmente perturbados de seguir com tanto fanatismo apenas uma dessas noções. E, pasmem, ainda tendo conhecimento disso. Como bem diz Coringa, "é o que acontece quando uma força que não pode ser parada encontra um objeto que não pode ser movido". A síntese de uma luta que dura décadas.

O Cavaleiro das Trevas pode ser escolhido, sem titubear, como uma das melhores adaptações de quadrinhos já rodadas. Inteligente, desafiador, arrojado, divertido, desesperador. É tudo isso e um pouco mais, tudo costurado com talento impressionante pelo enorme talento dos envolvidos. Se continuar assim, Batman tem tudo para ser a mais bem sucedida franquia baseada em um personagem de quadrinhos. Em dois filmes, já conseguiu superar a maioria esmagadora. Que continue assim, mesmo com a lastimável perda de Ledger, e que Nolan tenha a sorte de encontrar um substituto à altura para fazer um filme tão bom quanto este. Talento não falta.


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