



Façamos que nem Chico Buarque e troquemos em miúdos: Hiroshima Meu Amor não é apenas um dos maiores clássicos do cinema. A maior obra-prima, ou vá lá, ao menos a mais famosa, de Alain Resnais assim como Acossado de Jean-Luc Godard e Os Incompreendidos de François Truffaut (não dispensando, claro, outros luminares exemplos franceses como Chabrol, Rohmer e Rivette) revolucionou a linguagem cinematográfica entre o fim dos anos cinqüenta e o início dos sessenta. Até então, era a época dos grandes clássicos estadunidenses, mas em 1959 o grupo dos diretores do movimento que ficou conhecido como nouvelle vague revolucionou de forma drástica a forma de se pensar cinema.
Em primeiro lugar, os jovens adultos anti-heróicos chegavam furiosos nas histórias. Pessoas mal-resolvidas, cheias de angústias, muitas vezes às voltas com vidas marginais. Avessos ao cinema mais convencional, os cineastas tiraram os filmes da condição de serem feitos totalmente em estúdio e incorporaram influência do sombrio cinema policial dos Estados Unidos conhecido como noir. Contrariam o cinema de produtor, em que o diretor era apenas um empregado, e estabeleceram o cinema de autor, tornando a posição de diretor um pouco mais importante do que era até então: os realizadores dos filmes ganharam a importância de pensar em toda a concepção, montagem e construção dos seus filmes. O mestre do suspense Alfred Hitchcock foi considerado uma das maiores inspirações e influências nessa tese. Em busca desse cinema próprio, muitas das convenções tradicionais do cinema foram quebradas em detrimento de uma nova forma de se criar a sétima arte.
Dado um esclarecimento inicial para situar o leitor e faze-lo compreender melhor todo esse revolucionário e efervescente clima que despontava na época, vamos então ao objetivo principal dessas linhas. O filme em questão começa exuberante, mostrando toda a habilidade em edição que Resnais aprendeu nos seus primeiros anos de carreira, quando apostava na carreira de documentarista (inclusive, um de seus documentários é considerado um dos melhores de todos os tempos, Noite e Nevoeiro é o nome, e vale a pena conferir.); a bela imagem de dois amantes, um japonês e uma francesa, abraçados ternamente, choca-se com as brutais imagens das vítimas sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima. Beleza e choque, conforto e perturbação, sexualidade e deformidade são incrustados pela habilidosa edição do diretor e os brilhantes diálogos em off. A francesa, agoniada, lembra de todo o horror ocorrido em Hiroshima. O japonês ouve, constata e nega as afirmações, tal qual como um analista. No velho e raro caso das imagens que substituem as mil palavras, o fascínio e a repulsa causado pelas grandes tragédias e o choque cultural que todos enfrentam alguma vez na vida é concentrado poderosamente em alguns poucos e brilhantes minutos.
No embalo psicanalítico, Resnais levou ao cinema um roteiro autobiográfico escrito pela francesa Marguerite Duras, que se tornou reconhecida ao contar a história da sua vida várias vezes, mas de forma sempre diferente, já que escrevia por memória seletiva (ou seja, ela escrevia baseada em aspectos de sua memória, e não a verdade integral) - vamos descobrindo que Elle, a francesa, interpretada pela belíssima e talentosa Emanuelle Riva é uma atriz que vai até o Japão a trabalho, com o objetivo de fazer um filme pela paz (quando o filme questiona de, no meio de tanta propaganda, por que não propagar a idéia de pacifismo também?). O japonês é um arquiteto, chamado de Lui. O encontro entre os dois traz à memória da atriz um amor antigo e reprimido que ela teve durante a Ocupação alemã na França, quando se apaixonou por um oficial alemão. Amor este que, em meio à guerra, não pôde durar muito tempo e acabou tragicamente.
Ambos estão indelevelmente marcados pela segunda grande guerra, que afetou suas vidas para sempre, e relegou-os a um presente onde tudo parece efêmero e amargo. Elle nunca conseguiu lidar com o fato de perder seu grande amor, mesmo ele pertencendo aos então adversários, e Lui torna-se uma metáfora para o próprio Japão, ainda traumatizado com um ataque tão massivo quanto foi este da bomba nuclear - ainda sofre as conseqüências desse passado trágico, não sabe se está disposto a perdoar os ocidentais por tamanha brutalidade irracional. Pois Elle também não sabe seu futuro em relação à humanidade, por a ter abandonado quando ela precisava tanto disso em seu âmago pessoal.
É por isso que o filme vai tão além de questões como política, crítica social e revolução cultural. Tudo isso é subvertido em pano de fundo quando Resnais e Duras resolvem atacar questionamentos muito mais pessoais: a provável incapacidade de perdão, a reconquista de confiança, a incerteza de um futuro próspero, a desesperança, uma redenção impossível, os amores reprimidos por mortes e por bombas, a grande pressão que tanto conceitos como identidade e memória exerce sobre um indivíduo... Nisso, roteirista e realizador foram a fundo. O filme é silencioso, mas tem muito a dizer. Os gestos são tensos, mas ao mesmo tempo, suaves. O diretor não se deixa depender do brilhante início e faz com que todas as imagens iniciais desdobrem-se gentil e impiedosamente como poeira nuclear espalhada pelo corpo de dois amantes agarrados - nos mostrando de forma cada vez mais desesperadora que não conseguiremos perdoar um ao outro simplesmente fingindo que nada aconteceu, tentar viver a vida por meio de amnésia voluntária, trocar de pessoas como quem troca de roupa - A visão de um coração partido e um corpo despedaçado são, querendo ou não, experiências fortes demais para que possamos lidar de forma passiva, fria e racional.
O resultado, como mostra tão bem Resnais, acaba sendo patético. Os protagonistas ficam cheios de angústias, neuroses e tristezas, interpretados por Riva e Okada de maneira sublime - esses dois excelentes atores contribuem em muito para que a excelência do filme cresça em carisma e brilhantismo - mas o âmago que parece ser objetivado a atingir é que a vida não pode ser tocada de forma tão desumana como esta que os dois tentam viver - esquecimento e troca para fugir de uma dor que está sempre lá, incrustada a memória. O filme transborda sensibilidade rara, daqueles de se fazer emocionar sem precisar de muito; o silêncio tenso, a situação a qual os dois chegaram, a memória que volta impune nas expressões dos personagens e na memória narrativa e factual do leitor são alguns dos ingredientes que são capazes de deixar quem estiver assistindo completamente envolvido e comovido com dois dramas tão humanos.
Porém, mesmo tendendo ao pessimismo ao sugerir que sempre seremos essa pilha de sufoco e desgraça por simplesmente não podermos esquecer, por algumas marcas termos de carregar conosco, o filme ao mesmo tempo transborda beleza. Mostra que, por mais que a passagem do tempo vá sugando impiedosamente nossos ideais, nossas esperanças, nossas ilusões e nossa inocência, também nos distribui valiosas pílulas de sabedoria para que aprendamos com nossa própria dor, com nossa própria capacidade de evitar que os mesmos erros sejam repetidos ad infinitum. Sem um final necessariamente conclusivo, o espectador fica lá, embasbacado com a história dos dois fracassados que não conseguiram esquecer antigos traumas para reconstruir novas vidas.
Fica aquela sensação de que vida, talvez, é apenas uma, e de pouco adiantará ficar martelando as mesmas teclas. O que resta, talvez, é olhar para as próximas teclas, contemplar as outras páginas, perceber os erros, e enfim, continuar escrevendo. E só por esse sentimento extremamente íntimo e pessoal que o filme consegue reavivar em cada espectador, independente dele gostar ou não do filme, mas por tudo que foi mostrado e abordado por imagens tão poderosas e pouco mais de uma hora e vinte de duração que Resnais merece, pela sua estréia, todos os louros da fama que ganhou pela mesma.
E é com esses outros diamantes tão inesquecíveis que o mestre revolucionário, silencioso e discreto continua em atividade até hoje, na sua missão de cativar platéias dos mais diferentes cantos com sua arte tão única e mesmo assim tão humana. Um dos maiores filmes do século passado e, se me perdoam o sentimentalismo exagerado - oras, não pude evitar com um filme desses! - um dos filmes da minha vida.