



Sem grandes delongas: Annie Hall, ou como dizem por aqui Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é meu filme preferido de todos os tempos. De longe eu sei que não tem a mesma importância de O Garoto, Cidadão Kane, O Encouraçado Potemkin, Vinhas da Ira e tantos outros. Mas desde a primeira vez que vi a maior obra (ou, pelo menos, a mais famosa) de Woody Allen, figura da cultura recente que muitos dos meus parentes e conhecidos nunca encaram com o melhor humor de todos, eu não consegui evitar ficar completamente fascinado. Era algo tão setentista, tão novaiorquino, mas ainda assim assustodoramente universal. Foi uma das primeiras vezes que eu vi um personagem que eu me identificava, ao invés de apenas admirar.
A década de 70 não poderia ter sido mais feliz para Woody Allen, mesmo com detratores ao seu estilo e a mudança do mesmo. Em plena era em que o cinema dos Estados Unidos dividia-se entre o blockbsuter divertido e a contracultura radical, chapada e doida, o judeu baixinho e neurótico vindo do Bronx e apaixonado por New York surgiu com seu estilo tão único, tão autoral, uma fusão de sua admiração por gênios da comédia e do drama como Charles Chaplin, Groucho Marx, Buster Keaton, Ingmar Bergman e Federico Fellini com seu gosto por literatura clássica e seu apreço por jazz davam a ele um estilo absolutamente único na hora de fazer filmes; desde o início, em películas como Banana, Tudo O Que Você Queria Saber Sobre Sexo, Dorminhoco e A Última Noite de Boris Grushenko já mostrava uma mescla do seu arsenal: ator, roteirista e diretor vindo da comédia stand up, seu humor ácido e rápido casava-se perfeitamente com personagens cheios de angústias sobre a existência, política, sexo e relacionamentos. Mas nada preparou aqueles vividos nos anos setenta para Annie Hall.
Simplesmente, Annie Hall casou de forma perfeita e inspirada tudo que Woody gostava até então; uma tragicomédia psicanálitica e excêntrica tomou o ano de 1977, alcançando grande bilheteira, consagrando Woody como personagem célebre da cultura pop e lhe valeu oscars de melhor atriz, direção, filme e roteiro original no ano seguinte; curiosamente, isso ocorreu em plena era em que chegaram três dos maiores e mais clássicos blockbusters aos cinemas, Tubarão, Contato Imediados de Terceiro Grau e Star Wars. Nem os gigantescos Spielberg e Lucas, em seus auges, conseguiram barrar o frisson e a febre daquele final de década chamado Woody Allen.
Acompanhado de sua primeira musa e vencedora do Oscar de 1978 por este filme, Diane Keaton, Woody Allen crivou uma verdadeira obra-prima nos anais do cinema. Nem de longe a mais revolucionária e influente; mas, sem dúvida, um dos melhores. E como o primeiro parágrafo denuncia, insuperável para mim. E o leitor, inconformado e curioso pergunta: "que filme será este capaz de despertar tanto fascínio em tanta gente?". Longe de suspenses envolvendo animais, guerras interestelares, extraterrestres e outros, Annie Hall fala sobre um relacionamento entre um humorista stand-up e uma cantora que terminou. "Mas hein?", surge a pergunta, "como um tema manjado e tão explorado desses conseguiu fazer páreo em termos de reconhecimento com obras milionárias e grandiosas?", ou mesmo sobre histórias que refletem a moral e a sociedade, como filmes da mesma década feito Taxi Driver, Laranja Mecânica e outros? Mas, partindo desse panorama tão simples, Woody extrai um diamante dos mais brilhantes.
Tudo começa quando o próprio, um homem na casa dos quarenta, vestido com roupas absolutamente comuns, em um fundo neutro, começa a falar com a câmera. Conta duas piadas. A primeira, onde duas velhinhas, conversando em um resort à beira da montanha, chegando a conclusão que a comida de lá é horrível. E pior: vem em porções pequenas. "É assim que eu vejo a vida", diz ele, "cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza", declara e acentua ao final "e acaba muito rápido". Logo depois, cita uma frase do seu ídolo Groucho Marx, "eu nunca participaria de um clube que me aceitasse como membro", dizendo que é uma frase que define todos os seus relacionamentos. E explica a causa da sua mais recente angústia: ele, o humorista Alvy Singer, acabou de terminar um relacionamento com a cantora Annie Hall e sente-se tremendamente abalado com isso.
Novo estranhamento. Isso não era uma comédia? Então que diabos de introdução depressiva é essa? Bem, Annie Hall é, em sua essência, um filme trágico. Desde a infância e a escola passando pelos seus relacionamentos já na vida adulta, Alvy Singer revela-se como um indivíduo extremamente rabugento, neurótico, paranóico e que acaba se auto-excluindo de qualquer relacionamento com a sua pilha de angústias. Mas as muitas camadas que compõem o bolo não deixam nunca o filme partir para o lado completamente trágico; antes de qualquer coisa, é um filme mordaz, irônico e sarcástico, cheio de situações tão cotidianas que se torna impossível não se identificar com pelo menos uma delas.
Woody nos esfrega na cara que, inevitavelmente, a tragédia é a base para a comédia. A comédia é, antes de tudo, uma forma de ridicularizar e caricaturizar medos, anseios, culpas e preconceitos. O filme deixa claro; perfeccionista, um pouquinho xenófobo e obsessivo são só algumas das muitas pinceladas que Allen dá a um personagem tão rico. E nunca cai no erro de tentar ser uma fórmula didática de como sobreviver a um fim de namoro. O próprio protagonista não encara bem isso. A narrativa é fragmentada, parecendo ser um fluxo de consciência - quase como se estivéssemos acompanhando a mente do personagem em pleno funcionamento! - com o personagem de Woody refletindo sobre a sua própria infância e suas fantasias infantis para poder embasar as raízes de todas as suas neuroses, que aparecem entrecortadas com Alvy andando e intervendo em suas próprias memórias, sonhos e memórias alheias, sem contar quando fala com o público no meio da cena, de forma inesperada. Muitos cineastas que fizeram isso ficaram com fama de pretensiosos; que história é essa de derrubar a "quarta parede" e falar com o espectador? Mas o jeito que Allen faz isso se torna tão divertido e ácido que nós somos inevitavelmente seduzidos por tais propostas.
E para não taxá-lo apenas de um irônico usuário da verborragia, Allen cria muitas situações visuais em que a força cômica das imagens dispensa uma longa fala. Que tal, no momento em que Alvy intervém na sua própria memória, perguntando que fins deram seus colegas a quem desprezava, um grupo de crianças levantarem-se e falarem que hoje em dia, um é viciado em heroína, outro é presidente de uma Encanadora, e outra é uma sadomasoquista. Ou então, ao ir jantar com a família de Annie, reparar que a sua avó é anti-semita e enxergar a si mesmo vestido de rabino? A participação do pensador de mídia Marshall McLuhan é impagável. E é assim, entre diversão e intelectualidade, entre risos e choros, comédia e drama, que Woody faz o espectador ficar vidrado e até assustado de como um indivíduo tão complexo, único e regional consegue ser tão universal ao tocar em um questionamento tão corriqueiro, mas perturbador da condição humana: "por que diabos eu não consigo nunca me ajustar totalmente?". Acrescente alguns detalhes e retirem outros, e pronto! Muitos de nós somos Alvy Singer em potencial: um desajustado, que muitas vezes fica sem jeito ao confrontar costumes e pessoas totalmente estranhas para nós, e muitas vezes, incapazes de entender todas as agrugas acerca de relacionamentos e da existência.
Não é necessário comentar muito sobre a atuação de Diane Keaton. Na pele de Annie Hall, Diane brilha com todo o ar da sua graça ao representar o lado feminino da história; o tipo frágil e sensível, mas ao mesmo tempo carismático e ativo, que os homens julgam podê-las ensinar tudo - a eterna relação "Eliza Doolittle", de mulher aprendiz e homem sábio - mas que muitas vezes revelam que os inseguros para dar todas as respostas sobre a vida são os homens, tão seguros de si e ao mesmo tempo tão facilmente abaláveis. É o contraponto e o par perfeito: enquanto Alvy quer ler sobre morte, Annie prefere poesia. Ele é caretão, ela fuma maconha. Ele é racional demais, ela é emotiva em excesso. Ela quer ir se divertir em festas da alta roda, ele prefere o confortável divã do analista. Eles se amam, mas se desentendem mais do que Che Guevara iria desentender com Nixon.
Uma história dessas, pensam muitos, só poderia desembocar em um fim inevitavelmente pessimista. Isso, claro, se não fosse um filme de Woody Allen. Só que, diabos, isso aqui não é "Medéia" ou "Romeu e Julieta". É Annie Hall, humano, demasiado humano, cheio de erros, tão triste, mas ao mesmo tempo tão divertido e esperançoso. Certas pedras pelo caminho são inevitáveis, mas uma das inevitáveis graças é tropeçar em várias delas e conseguir se levantar. Nem tudo é o fracasso do american way of life, ou a impotência de ser humano. E Woody fez uma obra que dispensa maniqueísmos, e é uma sensível ode a essa difícil arte dos relacionamentos, no qual o próprio se assume como um amador - e que, mesmo sendo uma coisa tão maluca, nos é absolutamente necessária. Por essas e mais muitas linhas que poderiam ser escritas, é meu filme favorito.